23 de outubro de 2009
Romiéri e Icaro.
28 de junho de 2009
do corpo de pernas atravessadas destinando se sem endereço de mundo
Por ruas onde formas visíveis passam numa procissão de desagradáveis odores
Flores de briófitas ornamentam o cadafalso conservando o expirro dos enforcados e a correspondência dos dentes
Girinos mastigam os próprios rabos excitados por peixes esculpidos nas profundezas do mar a disposição dos órgãos produtores de luz
A casa fede cheia de luz As sombras não são tão cheirosas quanto no escuro A fala acesa conduz
Ao santuário habitado por nádegas febris repuxadas por gôndolas enviesadas nos muros
Aos estômagos abarrotados de cristo catalisado por papas
Atalho para antropomórfica Merda
Um soco me habita enquanto nada a chinchila para o bosque onde as peles cobrem fervores domesticados com tutano
A fuga é o abandono da alma que de tanto andar deu ao ar a forma do poço
Ícaro & Romiéri
9 de maio de 2009
Preparação para as cores
Os órgãos do poeta
são inadaptáveis ao vôo.
Seu longo intestino
uma odisséia entre o seu cu e sua boca.
O dorso nulo da vaca entorta a faca sem sangrar a lâmina ou balançar o rabo. No açougue morei três anos. Sim, a narrativa é linear. Imiscuído e variegado. Plurissentido unhívoco do navegar.
Faço então uma preparação para as cores, pois a faca é minha amiga, com ela hei de me pintar. Ontem planejei um suicídio e foi por isso que me veio à cabeça um composto de cores para enfeitar penhascos.
Não vos enganarei descabaçados leitores. Queria mesmo era disfarçar-me dos abismos como a bem conhecida pequena rã, que denominarei vulgarmente perereca, a qual com sua cor verde torna se invisível entre os pentelhos dos cristais e assume um semitom virginal sobre a cauda preta, uniformemente apodrecida do piano na partida sala de estar.
Queria mesmo era ser regurgitado pela vertigem ser sêmem fora da faringe
fecundando-me ao ar das ambiciosas banalidades. Quem sabe assim a tranqüilidade e glória dos hominídeos com cara de pato. Tendo portando a oportunidade de fitar-me no espelho e ver porra nenhuma.
Mas no nosso inferno meu claro Ícaro. A cera é sempre líquida. Não nos é permitido o mimetismo por cólera ou por amor. E nossa angústia nos revela camuflados no fogo.
E nossa paixão nos anuncia amantes-carrapatos transfundindo almas sem mamar na faca.
É com leveza, com absoluta leveza, escuro Romiéri, que no dorso puro da vaca nos aninhamos. Flor, absinto e estardalhaço na noite crua do espanto. Afinal, canto o podre porque nascemos.
Romiéri e Ícaro.
20 de março de 2009
Diálogo (parte 1)
Quentura de discípulo traído, fiel escudeira esquece em minhas partes teu regojizo. Soleira de porta, alheia ao crepúsculo ferido, ser poeta é sê-lo no sentido heróico do verso recém partido... terei fechado o caderno em minha consciência se ser poeta é sê-lo na falta de lucidez, se sê-lo senão é latência híbrida...vem me embarca em tua prosódica esfera rosada, vem digere a lama da tumba, minha caótica morada. Vai e vem com o teu senso avergonhado, sacode a foice em teu rosto trigueiro, me esquece no obscuro lampejo ... desembaraçado, teu cacho escorre pelos anéis dos meus dedos e se sê-lo poeta é, eu me vejo em teu parco seio direito. Aluga a casa, finca o pé no simulacro dos nossos desejos, recite o título em duas linhas e deixe a velha figueira vazia, vem e vai Camila em meus evidentes pesadelos...
Por ÍcaroReverso e Aninha Terra.
15 de dezembro de 2008
Anatografia*

O acesso proibido aos seus pesares e amores; a falta e o excesso; a sua pele que dá marco zero à anatomia do belo – meu desespero. O que te torna impossível às minhas unhas são os séculos, ora, a erupção de edifícios, o jorrar de táxis entre ônibus entre vans entrecortados nas esquinas, nos prostíbulos paulistanos, nos ventrículos de Belém do Pará, para a massa, para a fumaça, os muros grafitados de desdém. Pode o amor ser atemporal?, engulo seco o molhado da tua língua, da tua íris, teu clitóris, teu cadáver sepultado logo ali, tão longe, ainda que há tempos outros. Nós, os outros. Outro agouro ao verter a saliva em desejo pelo inexistir. A plenitude do amar o amor vago da ficção. Busco sua voz no tom da operadora do zero oitocentos, o seu toque num esbarrar na fila dos ingressos do teatro.
Trocaria meu tecnológico pelo teu arcaico beijo, ou algum lampejo de ira e sedução obrigada. Do abrigo do teu peito público, fugiria deste futuro em que fui arremessado, deste lugar tão distante de onde jaz o que sobrou da sua graça. Somente para ser seu, te dar o que tiraram.
Teu feminino costurado na pele da minha nunca, para nunca mais te querer assim. Teus merecimentos ofertados para que possa desprezar, se quiser. Falo arrancado por teus dentes em troca do seu sorriso. Procuro os vestígios do seu conceito nos olhos das mulheres todas, nas mãos delas. Tê-las em você em segredo então. Em tão poucos cortes posso abrir o peito e encontrar o vazio da obsessão por uma idéia sem cor, sem vida. Escancaro o diafragma de uma máquina fotográfica pra te ver na sombra, pela sombra, me assombrando entre as frestas criadas por bisturis.
13 de novembro de 2008
Melissas
"Estamos todos na sarjeta, mas alguns de nós olham para as estrelas."
Oscar Wilde
28 de outubro de 2008
Autocríptica
Num interstício entre qualquer quando e incerto onde, sem depois do que sonhara ali se lembrar, ele acordou sexagenário. Salivado desde o pélago onírico, consubstanciado ainda na roupa do leito. Acordado de acordo com os berros de repente senis. Por sessenta e um segundos imprecisos conservou-se taciturno sobre a cama cuspida pelo corpo. O seu esquelético corpo ordinário, sem rabo, sem asas, sem patas. Asquerosamente. Monstruosamente. Humano.
De pé, trovoado com ímpeto ao solo, esquadrinhou a janela por fissuras, inutilmente. O quarto estava três quartos sujo, a era suja do quarto. Todo um mundo imundo como uma curva de rio, como a memória, igual aos seus planos. Quis entregar-se novamente ao regaço do sono, o que teria conseguido não fossem os ecos daqueles gritos, nos outros cômodos da casa. Tampou os ouvidos com seus dois dedos de lêmure, com os quais não fez senão cutucar os vermes cerebrinos. Girando em círculos, perdeu-se no espaço tão pequeno, de dó dar. Em debalde procurou cama e comprimidos. Caçou o penico. Perseguiu os livros e o espelho. Nada. Nem as paredes, nem o teto, nem mesmo o chão. Peão naufragado no eixo da realidade, extraviado do resto, menos de si. E por isso mesmo, mais perdido! Ele percebeu que seu próprio sangue perigava inumá-lo e tentou se mover, o que não fez por pura púrpura abulia. Então, perpendiculou-se.
Procurou um canto para se sentar, para sessentar. Sentou-se sobre o carcinoma do seu cu violentado e, balançando-se nele, para frente e para trás, como se, respectiva a mente ora planejasse o passado, ora lembrasse o futuro, semeou nos lábios os caninos, para não sorrir. Logo rebentaram as tulipas liquefeitas de seu olho mais esquerdo, lavrado de terçóis. Não é que algo tenha doído, tinha do voltado.
Ele germinou três lírios, um em cada extremidade fértil de sua boca telúrica. Seus olhos de novo serenaram em cataratas gélidas de orvalho e breu, o que principiou a se precipitar. Quando reumaticamente suas mãos verruguentas transfiguravam-se circenses numa rede de amparo a salvar cadáveres esquisitos, os do seu semblante, de pele cambiante com as estações. Trapezistas que caiam para se misturar na rede, por vezes mesclando-se uns com os outros antes mesmo de chegarem, como que por pressa. Uma vez no bojo da trama de linhas da cabeça, do coração, da vida, reciclavam-se os cílios em ciclos, que a debandar se vão pêlos furos, ampulhetados.
Permaneceu inerte até não suportar a visão da morte, defronte da dictiopsia dos olhos. Moveu-se como a aranha que acaba de sair do ventre, a deixar um rastro de reflexos diluído. Seguiu até aquilo que estranhamente lhe pareceu ser uma porta, sem fechadura, maçaneta, nem nenhuma fissura. Reconheceu-se nessa porta hermética agora novamente tão familiar, era a mesma eterna porta tão fechada que com portas teve nunca nada
por Romiéri
& Aleph Davis
21 de outubro de 2008
dia logo se es vai
As pernas cruzadas, os dedos cruzados, os cruzados novos não trocados ante a nova moeda. A cruz e a espada da crueldade infantil. O cru; assim e assado. Um cruzador de canhões cânones do sacrilégio, cruzando o Tietê em dia de chuva, dia de enchente, dia de transitar São Paulo. A encruzilhada é o pretexto da esquiva.
Responde.
Entrecortado pelo formigar da perna, dos dedos da mão esquerda, da nota suja de dois reais. O crucifixo do sufixo aposto do oposto. O frito, cuspido e escarrado. O Cruzeiro do Sul guia a nossa senhora comprada à bala, boiando no rio em janeiro, em noite seca, noite de vomitar o engarrafado. Mas que sacro.
12 de setembro de 2008
Miss Tanatos
O anil da vulva se misturou a um desencanto desencadeando prantos e piernas para el aire
O caráter profilático da tua boceta, leve, carcomido, sobrevoa aquela laguna Plena de cancerianas pênias cavalgadas por caranguejos e outros signos tortos
Sem simbolismos ou representações nossos mamilos pulsavam diretos e vivos;
na transmissão impalpável de uma morte que nos parecia concreta
A cada frasco quebrado o transvasamento de nossos corações de plástico
Das ondulações liquidas do Triton vulgaris sentimos um flato de totalidade invisível
A rocha estrangulada pela lagrima do caracol fuzilado espera invejosamente pelos escombros de Sisífo.
Miss Tanatos se apercebe da lisura do falo no precipício
E convida três crianças para flertar na balada com absinto
Pasmada, soturna, coroa, Miss Tanatos recheia, na lagoa,
porra com desatino
Por IcaroReverso & Romiéri
13 de agosto de 2008
Saída de Emergência
Acionar o alarme, após abrir o compartimento e destravar a machadinha ensanguentada. Chamar o vigia, que esperará na porta com arma em punho. Não esqueça de fechar o zíper da calça, sem respingar o mijo na cueca. Antes com o jato do seu mijo você destruia uma parede, agora só serve para molhar as ciroulas. O aparelho de aumento peniano você colocou na quinta gaveta da cômoda, o móvel velho ao lado do lavabo. O tubo é super resistente e sua forma é ideal para a prática de vacuoterapia. O vigia, impaciente, retornará para a poltrona na entrada do edificio. Lembre-se: o gel lubrificante gratuito, facilita a introdução e o deslizamento.
O sinal de alerta vibrará junto com o sistema acoplado à parte externa do tubo. PIPIPIPIPIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIII. Colocar o anel de silicone para prolongar a ejaculação. USE ME e ABUSE ME, leia na última linha do contrato. A teraupeta recomendou o uso três vezes ao dia, por isso abra a janela, seu conforto na arte de amar jamais será o mesmo. Devido a sua teimosia, o vigia proibirá qualquer visita. A estrutura de ferro e o assento emborachado possuírão as medidas ideais para o vai-e-vem da circulação sanguínea. As tiras de nylon deverão ser ajustadas e o prepúcio cobrirá a haste quase que inteira. Retarde o ápice com as cinco bolinhas em tamanho progressivo, vinte minutos depois um exótico aroma de kiwi invadirá sua narina esquerda
... ... ...
Encerrada a sessão, lavar somente com água fria Deixar secar naturalmente à sombra. Não utilizar toalhas, panos e papéis. O talco de amido de milho preservará a vida útil da peça. Recomenda-se cautela aos hipersensíveis, em virtude da voltagem muito acima do normal. Alucinado, o vigia esmurrará a porta e explicará que você esqueceu de tomar a Canaviguara para um melhor desempenho. Você emitirá um grunhido de dor... já que a luva massageadora interna acabará de romper a túnica albugínea que envolve os seus corpos cavernosos. È uma lesão incomum, causada pelo trauma abrupto, acompanhado de dor e tumescência. O vigia invadirá o aposento, com uma das mãos irá carregâ-lo para a sala de cirurgia. Colocarão um conduto de látex dentro da uretra que permitirá drenar o seu mijo. Possívelmente em trinta dias, você voltará as gotas amareladas nas cuecas brancas.
8 de agosto de 2008
Palavras-valsa Pseudo-falsas
Rogai por nós agora e na hora do nosso nascimento.
T.S. Eliot
As mães não querem mais filhos poetas.
Hilda Hilst
quando de um
8 oito VIII
por Romiéri &
Aleph Davis
23 de julho de 2008
Clandestino
De aborto em aborto, o santo se enche de gozo. Se os homens engravidassem, o aborto já seria legal!
18 de julho de 2008
Sois sóis
14 de julho de 2008
A despedida
Vai, me conte de você, das suas obsessões. Tudo bem, justo quando começou a calvície o chapéu saiu de moda. Na verdade, eu acho que tudo tem uma certa relação. É... necessidade estranha de ser o que não se pode. Fico colecionando idades... o que você disse? A ansiedade toca as minhas mãos e me fez desaparecer em litros e litros de água contaminada. Por que você decidiu ficar bêbado hoje? São paranóias adultas de levar o cu para passear...Você pode me explicar ? Os caipiras do sul vieram urbanizar São Paulo e eles tinham alguma coisa contra o chapéu. Aaaaaaaaaaaaaaaaaa o refúgio. O stop baseado em vinho e Santa Isabel. A realidade bate, não vamos abrir? Diga que dá pena ouvir, pois não vai sair nada. Estamos na hora de vagar porra, atrapalha a realidade, não? Eles se fartam dos meus frutos, o imperador persa encerrou as contas. Terei que trabalhar? Só perambule pelos meus sonhos. Pesadelos? Passe adiante o peso não dói... Sua mãe tem o rosto mais delicado que o seu. Sei, sua percepção está atualizada. Espera até abril...a minha cegueira acabará. E as ameaças de morte, iniciarão? A gente vive na marginalidade não há sentido...Eu me deprimo, amanhã partirei. Você pode me dizer? Deus sempre atrapalha tudo! Procure a Rita e não diga asneiras... Prefiro entender o quatro ao quadrado. Lave louça que passa, há muita roupa no varal. Preciso me depilar... talvez saia alguma coisa. A minha bunda não cabe no assento do vaso, eu disse para comprarmos um maior. O quê? O quê? Use as argolas no pulso, a vermelhidão desaparecerá. Odeio...odeio vestir esses sapatos. Eu disse argolas. Se livre desses livros, por favor. eu pedi há tempos. Não entendo a paranóia, todos fechados e nem fazem ruídos...É irritante! Sempre tropeço nas estantes, você é sensível? O seu cu pulsa, percebi quando você comeu o strudel. Odeio leite morno...a colher é muito rasa. Então coma as raspas de limão. Eu disse para você me falar das suas obsessões, não de laranjas. A pressão atmosférica caiu, deu no jornal. Abre a enciclopédia, leia o trecho sobre a elevação do ar quente. Não aguento o hemisfério Sul, o ar sempre circula no sentido horário. Então vá buscar o seu olhar...só não vale adendo. Adeus, levo os muffins de queijo e azeitona. Olha...olha! o palito saiu limpo e seco, não é o momento de partir. Odeio política, você sempre soube, não me dirija idéias esquerdistas. Sem problemas, distribuirei tudo em forminhas e serei o recheio misturado delicadamente a sua massa. Amanhã...sem delongas, partirei.
Rotina teatral
— Não queria te olhar nos olhos.
— Antes você me abraçava.
(pausa)
— É.
10 de julho de 2008
Maneira Constante
Cacoete de poeta
É trejeito escritural
Feito de coleta
Viciosa corporal
Cacoete de poeta
É hábito fatal
Feito de esteta
Predileção animal
Cacoete de poeta
É escrito findo
Feito de pugilista
Automoção idealista
É cataclisma retido
Cacoete de poeta
Feito de sustenido
Trépido retorcido
É jeito verbal
Feito de recital
Cacoete de poeta
Prosa dual
4 de julho de 2008
Quis-me, Baby
para desobedecer ditador e o tiranizar
Quis entender olhar
para correr no escuro sem desabar
Quis crescer abismar
para caber no mundo e não caber em lar
Quis esquecer jantar
para prever a noite do cálculo biliar
Quis morder beijar
para adormecer donzela e com ela deitar
Quis sorver devagar
para escorrer o rio e a veia jorrar
Quis aprender surfar
para pertencer à praia e ao topo do mar
Quis merecer molhar
para chover na areia sem onda quebrar
Quis fazer sangrar
para verter noite em quem vampirizar
Quis meter matar
para ver a meta mentir sem calcular
Quis conter vomitar
para beber vinho e cerveja e até o bar
Quis ofender azar
para conter a sorte no jogo do amar
Quis saber tocar
para morrer jovem e guitarras quebrar
Quis sofrer burlar
para pretender apenas preconizar
Quis dever viajar
para conhecer sobre a lua e sob o luar
Quis mexer atar
para sofrer estático sem parar
Quis querer criar
para escrever versos e fazê-los rimar
além de ser-estar
de Aleph Davis
e Robinson Machado
junho/julho MMVIII
23 de junho de 2008
Des-coletiva

Lugares oníricos existem, eu temo em tomar o primeiro ônibus que passa.
Fico estarrecida com a minha falta de foco, o olho desforra o abecedário. Miopia ao contrário, fato já muito dado. Não li as letras pequeninas.
Quero partir num Coletivo com pátria criola. Desça ao sul e na cabeceira um vulcão. Eu me naturalizaria "despátria". Glauber seria o mestre. E Antigua o nome da minha toada.
No seio esquerdo, a libélula
Encruzilhada de jabuticaba
Seios abertos
Respiração engavetada.
17 de junho de 2008
Gritemos
No entanto.
Quando meu rosto recebia o carinho de outro, falei da tristeza sem texto, sem prezar pela construção de frases. Ao me indignar com um mal-atendimento na livraria, fui direto e moderadamente agressivo. Quando estive entediado, deixei o tempo passar e falei de futebol, música pop e do frio que chegou.
Cada grito tem seu espaço. Pergunte ao eco.
2 de junho de 2008
Democratártico
Surgiu na França, cidade de Nantes, mil oitocentos e pouco: colocaram mais bancos nas carroças de diligências francesas, vejam só, se entrava por trás e as rotas eram predefinidas. Foi criado por um ex-militar, que vendia banhos em chuveiros públicos na França do século XIX; empreendedor o rapaz... Para facilitar a busca de clientes, criou o que pode ter sido o primeiro sistema organizado de transporte público. Em menos de meia década, os novos “omnibus” já circulavam em Paris e ganharam o mundo.
Mais tarde, os bondes viriam diminuir os solavancos. Prato cheio para a análise dos antropólogos de plantão. Mas sabemos que não viria a dar certo, pois a leveza e o silêncio não-trepidante dos trilhos obrigavam os passageiros a conversar por obrigação. Não, obrigado.
O melhor diálogo é o que supera o barulho do motor, o ranger da estrutura metálica, o tumulto, os pisões, os odores, os contatos ocasionais dos sexos, o respirar coletivo, o calor, o frio, a freada brusca, as paradas, as corridas, a catraca enferrujada, a fumaça. É a superação por meio da igualdade coletiva. É a escolha pela liberdade de se buscar destinos comuns. É a dádiva de se reconhecer como bem-vinda qualquer oportunidade de fraternidade forçada. Touché.